A LINGUAGEM DA EXISTÊNCIA – Fátima Quintas

Vigio-me por dentro. Pergunto-me. Sei que as respostas não virão, porque a vida equivale a tantas figuras ortográficas que me rejubila a frase por concluir. Jamais pontos finais. Exorto as reticências, sou exatamente um acúmulo de indefinições que, a cada dia, se justapõem na inatingível montanha do eu. O verbo dribla o sujeito para evitar possíveis concordâncias. Não uso apóstrofes porque não suprimoaletra, nem as letras. Quero-as todas, juntas ou separadas, na construção de parágrafos concatenados ou desarticulados.  Abuso dos parênteses — eis a fórmula que me agrada —, assim engano os incautos ou os mais cautos dos deuses. Afinal, dos signos diacríticos depreendem-se valiosos recursos ilusionistas. A vírgula me assegura o fôlego da existência, o ponto-e-vírgula agiganta o interregno, os travessões permitem adendos complementares. Então, encho os pulmões de oxigênio e inspiro o mais que posso desse mundo que me amedronta. Em algum deserto desabitado, distante de qualquer visitação, na mais longínqua ponta de terra, expiro o ar que conservei intacto dentro de mim. Careço apenas de estabelecer um ritmo sincronizado com o que não vejo na exterioridade e com o que vejo, e muito, na interioridade.

Enxergo para dentro, não para fora. Quando escrevo, acautelo-me para não dizer o que não devo. Invariavelmente digo. As palavras saem inexatas, ocupando espaços sem a devida significância. Ora para mais, ora para menos. Estou sempre entre aspasa recorrer à magia da interpretação. Tudo é vago na linguagem do imo. Se me esgueiro para a direita, deixo abismos à esquerda; se me debruço para a esquerda, arrisco-me à vertigem da altura.  Os volteios me desorientam na ondulação de um mandala que se fecha em círculos centrípetos. Que farei eu com esse brinquedo tão redondo?

Eu sou uma pergunta, a insistir na adesão, em caráter definitivo, do ponto de interrogação. Definitivo? Ah! Que palavra grave! Nem mesmo a exclamação traduz o tamanho da perplexidade. Nada poderá ser tão explícito quanto a minha natureza conflituada. Na tentativa de suavizar os contrastes, resvalo para a exaltação do sonho, uma crédula que confere ao imaginário a razão plena do viver.  

Com o escudo do irreal, sinto-me à vontade. “Não há metafísica no mundo senão chocolates”, afirma o poeta. Entre uma pergunta e outra, devoro uma barra de chocolate. A vontade saciada se cala por alguns instantes para de novo recrudescer com aguçada veemência. Conservo-me em estado de alerta, sem aceitar concessões nem acomodações. Aspiro devorar as horas, eu, inconstante discípula do passado, plena de ganas na peregrinação pelos tempos que me rodeiam. O que devo fazer? Sacolejá-los ou ignorá-los? Estou cansada de render-lhes vênias. Quantas lições anódinas me servem de referência? Prefiro compreender-me à deriva dos ensinamentos. E sair por aí, rebelde, buscando janelas e portas que me apontem um mínimo de inspiração. Por que as portas se cerram antes de eu por elas penetrar? Deambulo erroneamente diante de uma parede sem porta, um muro alto e infindo que divide os meus desejos. Há em mim uma ânsia incontrolável de carne e de espírito.

Os signos ortográficos acumpliciam as minhas inquietações. Ofertam-me um instrumental para dirimir ou avolumar a capacidade de indignar-me. Ponto, ponto-e-vírgula, dois-pontos, travessão, hífen, interrogação, exclamação… me auxiliam no enunciado das frases, propiciando uma duração filosoficamente bergsoniana. Apesar da ajuda da grade gramatical, percebo-me entre aspas ou entre parênteses, sob a variância de um movimento que não é pendular; antes, inclina-se na direção do interrogar e do exclamar. Assim, vou levando o meu durar, tendo como ponto de partida essa intensa limitação que sou eu própria. Oca dentro de mim, sem antes nem depois. Sou. É tudo que posso dizer. Por enquanto.

Por favor, não me definam, tampouco me dilacerem com apressadas conclusões. Já não é demais Ser?

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. 

E-mail:fquintas84@terra.com.br

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