BANQUETE DE ILUSÕES/Fátima Quintas

Recomeço. Tenho o ímpeto de renovar-me, de ignorar o que sou e de conceber novos lampejos. Olho o tradicional armário, desprezo todas as vestes. Quero imbuir-me de um excêntrico Eu. Mudarei. Deixarei a mochila lá atrás e reformularei caminhos fascinantes. A pé, pela estrada da vida, não aceitarei rumo definido, seguirei na correnteza de espaços que não conheço. Viajarei. No primeiro pouso, tirarei os sapatos, andarei em descompasso, sem prévias definições. Não me perguntem para onde vou. Eu própria não sei. Assumo o destino da minha vontade. Que todos os desejos se realizem, o que me apetece é uma paisagem livre de desenhos previamente traçados.

Talvez o trapézio que procuro ainda não tenha sido definido. Pouco importa. Usarei da imaginação para realizar o desafio de não me Ser. Irei a todas as festas, dançarei tango, samba, valsa, bolero, estarei livre de compromissos, subirei montanhas, traçarei febris horizontes, sequer planejarei o instante a seguir. Apraz-me usufruir de múltiplas sensações, quase um levitar por entre ares instigantes. Sem planos antecipados, estarei ora nas nuvens, ora na solidez da terra, a deixar-me confiar nos meus desvarios: uma hedonista, sem regras nem limites; lançada aos mares, ao embalo do instinto, quase uma insana em busca da felicidade. Acolherei todas as gentes, sem a menor discriminação. Que a alegria se fortaleça longe de possíveis regramentos.

E o minuto passou tão de repente que não dei conta de sua velocidade. Os pensamentos geraram adoráveis delírios. O faz-de-conta pareceu tão extremo que estanquei diante do impossível. Tenho o sentimento de que vivi enquanto elaborei frases quase sem nexo. Logo eu, que me vejo afeita aos pequenos nadas da rotina! Ah quem me dera desapegar-me das lições da infância! Obediente e quase em permanente retiro. Agora, ousarei divagar mais do que posso. Entretanto, o som do vento forte me chama à realidade. Eis-me prisioneira dos afazeres do dia a dia, a cumprir os rigores tal qual uma religiosa em devoção plena.

O sonho durou pouco, porém me enfeitiçou. E confirmou que a vida deve ser pautada em espantos colossais. Confesso: toda a minha construção advém de excêntricos inventos. Raramente elejo o racional como versão primeira. Opto pelas quimeras e percorro um cotidiano ameno que me permite o êxtase da paixão. Gosto de me envolver entre as mais diversas utopias; então, sou capaz de convidar a todos para o banquete de ilusões. Tenho pressa, caro leitor, de doar-me ao ofício da ficção.

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras-fquintas84@terra.com.br

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