E O TEMPO SE ESVAI… – Fátima Quintas

Os dias se acumulam ao modo de uma pirâmide simbólica. Os caminhos seguem a estrada que vai a algum lugar ou a lugar nenhum.  Décadas se avolumam. Há uma magia instalada num calendário que se renova sob o embalo do tempo. Oh! Tempo tão indefinido… Sempre a prosseguir, independente da minha vontade. Quantas vezes desejei estancar o instante?! Pura ilusão. Quem sou eu para exercer tamanha façanha? Sigo ao passo e ao compasso das horas. Todos ignoram os destinos. Há um abismo em torno da nossa capacidade de entender a vida. Jamais ousarei interpretar o impossível. Entretanto, as indagações não me escapam e seguem ordeiras na complexa travessia. Digo o que sei e o que não sei. A escrita me fustiga, a dilatar o olhar para além do que vejo: o dia e a noite em permanente oposição — Sol, Lua. Claro, Escuro.

E assim a humanidade atravessa becos e avenidas. Avança em percursos variados, como se os impulsos a conduzissem aos mais intensos sigilos. Viver é aceitar o mistério. E jamais atingi-lo. As tentativas são muitas, infinitas. Dentro de mim, explode uma enormidade de perguntas que não querem calar. Procuro retê-las; porém, vão além do meu instinto. Penso enlouquecedoramente. Chego à conclusão que refletir representa a maior das significações. Às vezes, canso. E o cansaço me impele a novos cansaços. Não consigo reter a ansiedade das respostas. A aflição aumenta, perco o controle, estabilizo-me, volto ao começo de tudo; não adianta insistir. Serei sempre uma inconformista. O pôr do sol se instala, espio o horizonte, belo, aquém das pobres demarcações. Persigo-o. Rapidamente se esvai. 

Existem fortes semelhanças entre o horizonte e a existência. Ambos, inatingíveis tanto quanto verdadeiros. Indefinidos: luzes passageiras, cores esmaecidas, um conjunto de brumas que firmam a própria efemeridade. Não vale a pena interpelar densas abstrações. Abro a janela, fixo o crepúsculo, já se foi… E os dias transcorrem em meses, anos e séculos. Desde quando o pensamento pensa? Como saberei? Sou tão pequena! Sequer me arvoro a delinear-me. Trago um somatório de dúvidas, jamais resolvidas. Estou sempre em um processo de interioridade, procurando arrancar da alma a própria indefinição. Quanto mais me vejo por dentro, maior a angústia. Não me canso, todavia, de instigar-me — uma pulsão desesperada. Insisto. Percebo que, a cada minuto, o silêncio me afoga, ainda que me sirva de perene alimento… Desde quando posso prosseguir? Irei adiante, desbravando veredas, veredas, veredas…

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras-fquintas84@terra.com.br

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