ENLEVOS DA ALMA-Fátima Quintas

Há tantas lembranças do antigo jardim que meu rosto sorri diante da beleza da cena. O canteiro floresce emoldurado pela saudável grama. Existe uma aliança entre o verde e o rosa como se a sinfonia das cores firmasse o pacto do amor. A mãe regava todas as tardes as suas relíquias naturais. A água se espalhava sobre o chão da terra escura e o que dela brotava alcançava o clímax da delicadeza. A menina tinha dez anos; gostava de admirar o silêncio afetuoso. Cresci sob o olhar dos extensos recantos que rodeavam a casa. Em momento algum houve desleixo no esmero das férteis plantações.

Às quatro da tarde, o ritual começava e durava uma hora, às vezes, até um pouco mais. Afinal, os nichos eram muitos e bem divididos: à frente do terreno, três requintados plantios; do lado direito, um muro imenso de heras acompanhava o caminho do carro até a garagem de cimento; do lado esquerdo, as hortênsias brotavam com espontaneidade. Em momento algum, houve desleixo no trato da natureza. Os afetos em exterioridades explodiam.

E a infância me segredava um mundo em torno de rosas, lírios, cravos e tulipas. Que mais poderia eu desejar na minha inventividade do advir? O pequeno ruído da água se espalhava por entre vasos e mangueiras. Adorava o ato de organizar a simetria da distribuição. A mãe incentivava o encanto da menina. Era hora de exaltar a paz entre os homens. Voz meiga, me repetia: “Agradar as plantas é a melhor forma de aplaudir a humanidade. Todos nós somos como flores, suplicamos por carinho. Nunca se esqueça de aguar a vida”.

Em tempo algum, a mãe relaxou o regar dos sentimentos: o carinho das palavras, o afago com as mãos, o olhar meigo, o beijo da noite… As orquídeas, tão bem umedecidas, revelavam o seu jeito de ser. Nada de esquecimentos, uma sinfonia renovada. Entre a mãe e os filhos, reinava o excesso de regalos em flor. Doava-se muito além dos gestos. As sementeiras nunca desapareceram da minha vida, tal qual o símbolo de uma mãe eterna. Tudo ficou, até mesmo os pontuais olhares de reprovação.

Não importa que a casa tenha sido destruída pela avalanche da modernidade. O que foi nunca deixará de ser. Sou uma ferrenha adepta da memória. O passado é meu lastro de sustentação. Retenho os lírios dos momentos vividos — tornaram-se perpétuos na chama da alma. Tenho por hábito cultuar o que em mim renasce a todo momento. Ciranda que me agrada e me renova. Sou outra de instante a instante.

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras – fquintas@terra.com.br

 

 

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