Homenagem – Recife e Olinda

Eu sou Capibaribe  

*Robson Sampaio                 

 

Dos mangues do rio arranquei

a carne da sobrevivência:

as iguarias das mesas das sirigaitas.

 

Das águas do rio tirei

o som da flauta;

a composição dos pássaros,

a sinfonia de todos os cânticos.

 

Vim de muito longe,

passei por Beberibe;

eu sou recifense,

eu sou Capibaribe.

 

Nas correntezas do rio embalei

os nossos sonhos,

o mergulho profundo:

ora vida, ora morte.

 

Vim de muito longe,

passei por Beberibe;

eu sou recifense,

eu sou Capibaribe.

* A Zé da Flauta

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Saudade danada…  

*Robson Sampaio                 

 

Recife,

cadê teus arraiais,

canaviais, mucamas

e sinhazinhas?

– Casa-Grande

 

Recife,

cadê teu forró,

ciranda, maracatu

e frevo?

– Carnaval

 

Recife,

cadê teu mar,

pontes, praças

e rios?

– Beberibe e Capibaribe

 

Recife,

cadê teus boêmios,

bares, batida gelada

e mulheres?

– Poesia

 

Recife,

não mais te encontro

e sinto uma saudade

danada…

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Recifense…

*Robson Sampaio
Nas águas eternas do Rio Capibaribe,

naveguei sonhos e derramei lágrimas

de tristezas e de alegrias.

 

Nas ondas salgadas da Praia de Boa Viagem,

molhei o corpo e purifiquei a alma.

 

Nas pontes históricas do Recife,

forjei o destino e percorri as trilhas

da vida.

 

E, só assim, me tornei recifense…

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Recife (Noturno)

*Robson Sampaio                 

 

Só gosto de ti à noite,

quando os abstêmios dormem

e os boêmios saem às ruas

em busca do nada.

 

Só gosto de ti à noite,

quando batem lembranças

de amor e de sonhos perdidos

no tempo.

 

Só gosto de ti à noite,

quando me debruço sobre

o Rio Capibaribe e, assim, consigo

ver a minha alma e a chorar

a dor do mundo.

 

Só gosto de ti à noite,

quando pertences por inteiro

aos boêmios, vagabundos

e poetas.

 

* À poetisa Cida Pedrosa

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

O Recife              

*Robson Sampaio                 

 

O Recife não é uma aldeia.

– O Recife é um estado de ser…

Suas luzes, naturais ou artificiais,

não são luzes e, sim, o alumiar

dos teus olhos.

 

Reflexos de todos nós,

recifenses ou arrecifensados,

onde as luzes não são luzes,

mas olhos debruçados sobre

o Capibaribe, um traço indivisível

de ser o Recife…

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Agosto

 

*Robson Sampaio                 

                               

A ventania varre o Recife todo.

É agosto. Mas, não varre a miséria,

a sujeira e a indignidade.

Porém, prenuncia o calor do verão.

É o mês do desgosto?

Nas ruas, becos e pontes, esvoaça saias,

despe o recato e reimagina vontades,

enquanto as mulheres sonham com

a vadiação…

Alegria?

 

Aos homens, suscita o bem querer

e estimula a bebedeira do dia-a-dia.

Agosto, desgostos, vontades e vadiação…

Apocalipse das tentações?

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

 Poetas do Recife  

 

*Robson Sampaio                 

 

Perfume de poemas no ar,

casario repleto de fantasmas

que saem, quase sempre, em busca

da boemia do Recife Antigo.

São os poetas da vida, das ruas,

do bairro, do mar, dos arrecifes.

Andarilhos em busca

do bálsamo para a desilusão,

dos braços quentes e fogosos das

mucamas dos dias de hoje,

não mais amas das sinhazinhas fidalgas,

mas serviçais dos desejos da carne.

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Azul

*Robson Sampaio                 

  

Enigmaticamente, ando só pelas

ruas do Recife.

Apesar do burburinho das pessoas,

no vaivém do cotidiano,

sinto-me ainda mais sozinho.

 

A saudade invade o meu peito e

penso no poeta Carlos Pena Filho.

Paro, olho o Céu e vejo o Azul…

Relembro os seus versos:

“São 30 copos de chope,

são 30 homens sentados,

300 desejos presos e 30 mil

sonhos frustrados…”

 

Saudades…

Mais saudades do Azul

e do Recife-poético.

Saudades recifenses,

sempre azuladas…

* Ao poeta Carlos Pena Filho.

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

O Canto do Galo     

   

*Robson Sampaio                 

 

Que canto é esse,

que sacode a multidão?

Que canto é esse,

que mexe com o coração

e que acorda o Recife?

 

É o canto do Galo,

é o som da Madrugada,

é o canto do Galo,

do Galo da Madrugada.

 

É o canto e o encanto

de gente nas ruas, ruas de gente,

mar de frevo, frevo da gente,

frevo do Galo.

* A Enéas Freire (fundador e presidente) e ao compositor José Chaves (autor do Hino do Galo da Madrugada) – O Frevo do Galo.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Entardecer

*Robson Sampaio                 

 

O mistério do entardecer no verão recifense

ilumina o Capibaribe e reflete a alma:

Pernambuco.

O mistério do entardecer no verão recifense

anuncia o som dos clarins de Momo:

Passo e frevo.

O mistério do entardecer no verão recifense

sugere águas mornas e areias quentes:

Azul do mar.

O mistério do entardecer no verão recifense

reacende o calor das mulheres que brincam de sedução:

Vontades ardentes.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Recife Antigo  

*Robson Sampaio                 

Nos botequins de ontem,

relembro velhos e novos amores

e carrego, por ruas e becos,

o presente e o passado,

simbiose de eterna saudade.

Então, batem as lembranças:

nada mudou no Recife Antigo,

onde poetas, bêbados e vagabundos

vagueiam, à noite, feitos zumbis.

Somos os sonâmbulos da boemia,

animais sedentos de amor e de paixão,

que recolhem pedaços da carne

só para salvar a alma e, assim,

alcançar o perdão.

Nada mudou no Recife Antigo,

onde as faces sofridas se multiplicam

iguais e com sulcos talhados de dor…

 

Somos os compositores das canções da vida,

os poetas dos poemas passageiros,

os artesãos que juntam trapos e confeccionam,

diuturnamente, o eterno uniforme do Recife Antigo.

Formamos o cordão dos desesperados,

de alegrias furtivas, de sonhos perdidos

e de vontades saciadas, quase sempre,

em corpos estranhos.

Mas, nada mudou no Recife Antigo,

onde a sinfonia prossegue até o clarear dos arrecifes.

E, nós, em passos trôpegos, buscamos a Estrela Guia,

entoando o canto mágico do faz de conta.

Assim, transformamos o nada em tudo

e o imaginário em imaginação,

enquanto a música melosa é ouvida mais forte

nos puteiros do Recife Antigo.

Onde, nada muda…

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Sou arrecifes…      

*Robson Sampaio                 

 

 Sou arrecifes,

de pedra esculpida nos

rebentes das ondas do mar

e na força dos ventos.

 

Sou arrecifes,

de arrebentação

de Sol no rosto

de águas azuis

de gosto de sal

de gente do frevo.

 

Sou arrecifes,

de pedra esculpida

de pontes rochosas

na sinuosidade

do Rio Capibaribe.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

Poetas

*Robson Sampaio
 

Os poetas,

se não são imortais,

pelo menos, são eternos.

 

Os poemas surgem como

relâmpagos em noites de inverno;

ou com o brilho das estrelas em noites

enluaradas.

 

Também, nas mesas dos bares,

na saudade do amor perdido,

na aflição de uma mãe;

ou no sorriso das crianças.

 

E,ainda, nos reflexos prateados

da Lua sobre o Rio Capibaribe,

marco indelével do Recife.

Por isso, digo: os poetas,

se não são imortais,

pelo menos, são eternos.

* Ao poeta Roberto Santos

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Almas do Recife    

 

*Robson Sampaio
Versos, versos e mais versos

a povoar de almas o Recife.

Poemas em cada esquina,

em cada bar, em cada desilusão

enchem e perfumam ruas e bairros:

da Aurora ao Recife Antigo.

São pedaços de cada um de nós,

poetas, vivos ou mortos.

Eles, como nós, teimam em poemar

a vida no Recife e a não

dormirem com a morte.

Versos, versos e mais versos!

Assim são os poetas

a povoar de almas o Recife.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Sinfonia dos Vagabundos

*Robson Sampaio
Vagabundos, uni-vos!

Vinde louvar o Recife e

compor a Sinfonia dos poetas,

boêmios e miseráveis.

Vaguemos pelas ruas sujas e

fétidas, onde chagas de dor

e de desespero são expostas na

Sinfonia de todos os dias.

 

Vagabundos, uni-vos!

Vinde louvar o Recife e

ouvir a ladainha das devotas

beatas a compor a Sinfonia

dos pecadores de corpo e de alma.

 

Vagabundos, uni-vos!

Vinde louvar o Recife e

cantar o frevo-canção de dor,

de tristeza e de saudade,

num cântico excêntrico da

Sinfonia dos Vagabundos…

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Águas do Mar

*Robson Sampaio
Há um cheiro de mulher no ar,

uma mistura com o cheiro

das águas do mar.

 

Há corpos seminus,

deitados nas areias mornas

do mar.

 

Há mulheres nas ruas: negras,

brancas, loiras, morenas, mulatas,

todas com o gosto dos frutos

do mar.

 

Há olhares, gestos, promessas e

sorrisos entre homens e mulheres,

em cumplicidade com o sol e

embalados nas ondas

do mar.

 

Há ternura, solidão, juras de amor,

paixões desenfreadas, que só o

verão recifense pode dar

nas águas do mar

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Vou “m’imbora pro” Recife…

Robson Sampaio*

Vou “m’imbora pro” Recife

do mar, das jangadas, das redes,

dos pescadores, dos peixes, do caçuá,

dos mangues, das ostras, dos siris,

dos caranguejos e da minha gente…

Vou “m’imbora pro” Recife

dos caboclinhos, da ciranda,

do maracatu, do baque-virado,

do Galo da Madrugada,

do Homem da Meia-Noite,

do frevo e dos meus foliões…

Vou “m’imbora pro” Recife

dos arrecifes, das pontes, dos becos,

das travessas, dos bares, dos botecos,

dos boêmios, da lua, das estrelas, do vento,

do sol, dos meus sonhos, da minha sina e

do meu Capibaribe…

Eu vou “m’imbora pro” Recife e

vou “m’imbora pra” mim mesmo!

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Sombras                  

*Robson Sampaio
Nas esquinas, ,

as sombras,

nas sombras,

cada um de nós:

loucos, bêbados,

miseráveis,

os sem-nada

 

Fantasmas a

se esgueirar por

becos e vielas sombrios,

encobertos pelas vestes

negras da noite.

A fugir do presente,

a esquecer o passado

e sem ter o futuro

 

Nas esquinas,

as sombras,

nas sombras,

eu, você e o Recife…

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Recife: Só Cores

*Robson Sampaio
 

Recife…

Dos meus amores e dores

Dos meus sonhos e dissabores

Dos meus quitutes e sabores

Dos meus engenhos e licores

Das minhas certezas e temores

Dos meus jardins e flores

Dos meus perfumes e odores

Dos meus cânticos e louvores

Do meu frevo e compositores

Das nossas Marias e Dolores.

Recife, tu és só cores!

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Frevar Olinda                  

*Robson Sampaio
Olha moçada,

é madrugada,

sai da calçada,

vem pra rua,

olha que lua,

escuta o frevo,

vamos frevar.

 

Apesar de tudo,

 vamos cantar,

não fique mudo,

nada de choro,

é hora de sonho,

de brincadeiras,

até de namoro.

 

A esperança é linda,

ela não finda,

vamos frevar,

viver a vida,

cantar (frevar) Olinda.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Boneco-gente?

 *Robson Sampaio

 

No estrelar da noite olindense,

surge a  cantar e a dançar

uma multidão de brincantes

a sorrir com uma alegria contagiante

sob o compasso de um gigante,

às vezes boneco, às  vezes gente:

é o Homem  da Meia-Noite.

 

Explodem os clarins, o passo,

os amores, as ilusões passageiras,

tão efêmeros, quantos eternos,

no gingado do frevo

de um Carnaval sem fim.

 

É o povo, é o canto, é Olinda,

é o Homem da Meia-Noite:

às vezes boneco, às  vezes gente,

neste ritmo efervescente

do frevo pernambucano

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

e-mail: rsampaioblog@gmail.com

 

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