O RISO DE JULIANA/Fátima Quintas

Diz o poeta americano T. S. Eliot (1888-1965): “Enquanto ela ria eu me vi sendo envolvido por seu riso e me tornando parte dele, até que seus dentes fossem apenas estrelas fortuitas”. Estrelas em um céu de paixão permanente.

Conheci Juliana em uma tarde crepuscular, quando o sol começava a se despedir e o céu se oferecia com clareza. Eu, adolescente; ela, uma jovem de 23 anos. Trazia no rosto um sorriso contagiante. Espontânea. Leve. Verdadeira. Jamais se furtava a transmitir opiniões, mesmo que as palavras viessem a contrariar um diálogo afirmativo. Incrível como brindava com flores suaves a linguagem rebuscada, porém fecunda em densidade. Guardava em si um mistério contagiante. E a graça verbal a tornava grandiosa.

Lembrei-me de Juliana ao ler o texto de Eliot, explicitação fiel do que dela germinava. Imediatamente a memória se fez presente; então, deixei-me envolver pelas belas tardes com a amiga. O nosso encontro ocorria sempre no terraço da sua casa, à Rua do Futuro: jardim bem cuidado, ambiente de paz, moradia tradicional — ares de recanto rural. Ali, desabafei segredos, o confessionário do passado. Tudo parecia enigmático, inclusive, a imensa capacidade de acolher com discrição o dito e o não dito. Do riso largo ao temperamento reservado cresciam as possibilidades de fazer-se inteira, sem mexericos, autêntica. Com frequência, visitava-a. Apetecia-me trocar ideias ou apenas desabafar. Edifiquei meu oráculo naquele riso tão generoso e expansivo.

Numa manhã ensolarada, corri até o terraço milagroso. Tinha novidades a narrar. Encontrei a casa fechada, um silêncio a doer na alma; não havia cadeiras do lado de fora, tampouco o menor sinal de presença física. Abri o portão, entrei. Circulei o quintal, a imobilidade crescia. Desolada, sentei na grama. Em mim pululava uma inesperada inquietação: mil possibilidades, nenhuma me parecia legítima.

Dias se passaram. A saudade aumentava. Pouco a pouco, comecei a refletir sobre o riso de Juliana. Até quando suportaria a ausência? Resposta alguma se adequava à dura realidade. Procurei adaptar-me a um adeus sem aceno. Mas continuei buscando-a. Em todas as esquinas. Em todos os recantos. Em todas as tardes… A sua completude hoje me parece tão palpável que começo a apreender a partida inesperada.

Não tenho o seu retrato. Nenhuma pista a seguir. Apenas a imagem do riso, eterno, insuperável, assim como as estrelas fortuitas de Eliot.

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras.fquintas84@terra.com.br

 

 

 

Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Current ye@r *