OS PÁSSAROS CARREGAM A LIBERDADE (*)

Corria o ano de 1948. Oficialmente o verão ainda não começara no Brasil,
mas o calor no Recife, desde o mês de outubro, convidava a sair de dentro de
casa e brincar na rua ou no quintal. No primeiro dia de agosto, eu, com cinco anos
de idade, fui matriculado no Jardim da Infância no Instituto Castro Alves, recém
instalado em uma esquina próxima da minha casa. O que apreciava mesmo era a
liberdade que gozava nos finais de semana, brincando no quintal, sozinho ou com
vizinhos da minha idade.
Completei seis anos em dois de setembro e pela minha tenra idade foi com
surpresa que em primeiro de dezembro, minha mãe ao me acordar disse que eu
estava de férias. Não sabia o que era aquilo, e perguntei:
– O que é férias?
– É não ter a obrigação de acorda, tomar banho, vestir a farda e seguir para
a escola.
Gostei de saber que estava de férias: cajueiros, mangueiras, goiabeiras,
araçazeiros, pitangueiras, jabuticabeiras e outros mais; estavam em plena safra,
esperando por mim no imenso quintal. Outras frutas haviam, mas não para serem
consumidas no pé (abacate, coco, fruta-pão etc.). A quantidade de fruteiras em
todos os quintais vizinhos era imensa, e de igual maneira o número de pássaros
também. Como tudo o que não é nosso parece melhor aos nossos olhos, aprendi
a subir e andar sobre os muros divisórios para apanhar frutas iguais as da minha
casa, só pelo prazer da aventura. Também a altura no muro facilitava alcançá-las.
Desta maneira, logo no primeiro dia das férias, caminhei saindo do muro de
minha casa e passei dois quintais adiante, só por curiosidade. Deparei-me então
com algo que minhas irmãs não permitiam colocarem no jardim nem no nosso
quintal: gaiolas com alçapões. Institivamente, soltei os pássaros presos nos
alçapões e abri as portas de todas as gaiolas que pude alcançar. Tive um pouco
de dificuldade com algumas por estarem penduradas altas nas árvores, mas com
tenacidade consegui, deixando poucas com pássaros presos. No dia seguinte, de
volta ao quintal, perscrutei de longe e notei que não havia gaiolas nem alçapões.
Mantive-me ocupado brincando com minhas irmãs e meu amigo Arturzinho, da
minha idade e esqueci da trela feita com as gaiolas e alçapões.
O tempo passou e chegou o dia 10 de dezembro, aniversário de meu pai.
Haveria um grande almoço reunindo toda a família e minha mãe despachou-me
logo cedo para o quintal para não atrapalhar os preparativos. Igual ao que fazia
diariamente, catei e colhi as frutas maduras, coloquei sacos de papel das goiabas
inchadas, e escalei o muro para procurar o que fazer. Ao longe avistei as gaiolas
e os alçapões no quintal do vizinho. Caminhando e equilibrando-me no muro
cheguei ao meu destino. Tranquilamente comecei a abrir as portas das gaiolas e
levantar a tampa dos alçapões. Contente assistia à alegria do voo dos canários da
terra, papa-capins, curiós e outros que não lembrava os nomes quando um grito
ecoou junto a mim, encostado ao muro onde encontrava-me equilibrado.

– Seu moleque sem-vergonha! Vou agora mesmo reclamar com seu pai!
Passe pra fora do meu quintal! Ora já se viu uma coisa dessas!
Não sei como consegui, mas corri sobre os muros sem cair até que pulei
dentro do meu quintal. O coração batia descompassado, com o pensamento na
confusão em que estava metido. (- O que meu pai faria? No mínimo levarei uns
bolos de palmatória. Não era coisa boa de pensar). Permaneci sentado o resto da
manhã, escondido nas touceiras de bananeiras, até que o empregado, com um ar
de satisfação no rosto, veio dizer-me que meu pai estava chamando-me e que
fosse logo. Segui para casa mordendo o lábio inferior com vontade de chorar.
Encontrei meu pai sentado na cadeira do birô do gabinete, esperando-me. Depois
de olhar longamente para mim, disse:
– No dia do meu aniversário recebi a visita de um vizinho, não para
parabenizar-me, mas para prestar queixa de um comportamento seu. Pode dizer-
me o que você fez e por que?
Arregalei os olhos de medo de falar e as lágrimas pularam aos borbotões
escorrendo pela face. Quase nenhum som saiu de minha boca: só finos grunhidos
quando tentei falar. Comecei a passar um pé sobre o outro impaciente. Meu pai,
com a voz calma disse:
– Não tenha medo. Por que você invadiu o quintal do vizinho e soltou os
pássaros presos nas gaiolas e nos alçapões? Pode falar sem receio.
Respirei fundo, enxuguei com as mãos o rosto molhado de lágrimas e
olhando para o chão, falei bem baixinho:
– Não gosto de ver passarinhos presos.
– Vem aqui meu filho amado, quero lhe dar um abraço. Você mostrou que
tem um grande coração. Também não gosto de pássaros presos. Seu erro, por
ser criança, foi não respeitar o espaço do próximo. Tenho certeza de que não fará
mais isto.
Sentado no colo do meu pai, o mundo pareceu voltar a sorrir para mim, olhei
para ele e disse.
Papai, foi tão bonito eles voarem livres.
E naquele mesmo dia, 10 de dezembro de 1948, bem longe em Paris a
Assembleia Geral das Nações Unidas, por meio da Resolução 217 A (III)
estabeleceu, pela primeira vez, a proteção universal dos direitos humanos. Não
existe maior bem ao homem do que ser livre, dono do seu destino.

Melchiades Montenegro

(*) Lúcia Cardoso, Livro; A VOZ DOS CAMINHOS, página 96.
NOTA – Esta crônica faz parte da ANTOLOGIA CRÔNICAS PELA LIBERDADE uma
publicação da UBE/São Paulo da qual o autor é associado.

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