PALAVRAS SOLTAS/Fátima Quintas

Olho a mesa, tão bela e tão estática! O papel não se move, a caneta inexiste no seu isolado retraimento, o lápis aguarda alguém para usá-lo. As coisas estão bem perto de mim e, no entanto, se perdem na ausência que eu própria revelo. Decido apenas decifrá-las. Estou a meio do mundo ou a meio de uma sala plena de móveis? Ando de um lado para o outro, em nada toco. Priorizo observar o instante. Tenho a sensação de que não sou capaz de interiorizar-me como quero: um cenário parado me impede de fazê-lo vibrante. Sento na cadeira e resolvo escrever. Preciso vivenciar a materialidade que me cerca. Que palavras usarei? Desaprendi a pensar e logo se me abate a nadificação de quem almeja sacolejar a própria vida.

Desenho símbolos à toa, o derredor parece confuso, eu própria me refugio no que não disse. Saberei expressar-me amanhã, ou o presente reclama o ato de ali ser e sentir? Lápis a mão, e a letra se fazendo uma a uma. A mente inventa, reinventa, rascunha inadvertidamente, significa e ressignifica. A solidão do entorno me leva à sublimação. Deixo-me invadir pelo espaço, nenhum som pronuncio, mas ouço demais, como se inúmeras vertigens explodissem do íntimo. Aceito a imensidão de mim mesma, então, me refugio no papel indefeso e sombrio. E nele vou escrevendo o que a alma fala. Tantas coisas estranhas! Umas alegres, outras tristes, algumas indecifráveis, ausentes de expressão. Sou e não sou. A palavra, entretanto, me eleva em dignidade. Preciso extravasar. Exatamente o quê? Pouco importa. Frases e mais frases se acumulam em um espaço que antes se fazia nulo. A capacidade de me decifrar vai impulsionando o que desejo elaborar. Digo. Ninguém me ouve. Tampouco falo. Desabafo entre as linhas de um papel em branco, solitário e aparentemente inútil. As vogais me ajudam e as consoantes se atrelam à ousadia de uma escritura que se desenvolve pouco a pouco. O texto vai se formando sem racionalidade, um conjunto de emoções que me invadem à revelia de alguma lógica. Recebo o fluxo dos desabafos; esboço-me por dentro, assim me quero. Que fotografia tracei? Não me perguntem, neste momento aspiro às inúmeras irreverências de uma mulher solitária.

Até quando me envolverei com as palavras? Nunca sei responder ao que pergunto ou ao que não pergunto. É a mesma coisa. Almejo distribuir no âmago um mínimo de elaborações ou reelaborações. Preciso de muito mais para descortinar-me por completo. Ou será que estou enganada? São tantas frases que se complementam…

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras-fquintas84@terra.com.br

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