PROTEÇÃO COSTEIRA: QUAL O IMPACTO DE UM QUEBRA-MAR SOBRE RECIFES?

Atualmente encontra-se em andamento um projeto para proteção costeira na praia do Cabo Branco. A proposta para proteção costeira na falésia do Cabo Branco foi a construção de enrocamento no sopé da falésia e a construção de um grupo de quebra-mares sobre os recifes.

Recebemos hoje em nossa coluna Proteção Costeira, uma contribuição importante do professor e pesquisador Gabriel Louis Le Campion da Universidade Federal de Alagoas, biólogo e mestre em Oceanografia Biológica para tratar do assunto.

Uma obra similar à da praia do Cabo Branco foi construída na década de 90 em Pernambuco. Foram construídos 9 quebra-mares paralelos na praia do Janga, no município do Paulista, na região metropolitana do Recife, para proteção costeira. Observando a imagem abaixo do Google, pode-se observar a formação de “tômbolos”, isto é, acréscimos na faixa de areia, por trás dos quebra-mares.

Imagem do Google Earth 2020 mostrando a formação de “tômbolos” por traz dos quebra-mares, praia do Janga.

O Recife sedimentar de arenito de praia na sua gênese ocorre em região litorânea em linha de praia, ou seja, geralmente é um testemunho de onde estava a praia. Na sua formação podem ocorrer descontinuidade na sedimentação das camadas, ficando pequenos espaços ou até espaços maiores. O que torna o Recife frágil a um sobrepeso, podendo fraturar o bloco recifal provocando tombos ou rebaixamentos. É fácil observar em mergulhos a presença de buracos pequenas cavernas ou fraturas, afirmou o professor Gabriel Le Campion.

Geralmente, a parte mais superior ou externa da sua superfície é recoberta por uma microbiota e microbiota bentônica, muitas das quais são compostas de organismos incrustantes, cuja formação reforça a estrutura recifal reduzindo a erosão provocada pela energia das ondas e das correntes. Essa biota é fundamental para a manutenção e o crescimento do Recife, inclusive em resposta a elevação do nível médio do mar mantendo a propriedade dissipadora de energia do mesmo ao longo do tempo, é extremamente sensível a vários fatores, os principais são a sedimentação sobre o topo recifal, o pisoteio ou construções sobre os mesmos.

Muitos organismos dessa biota, responde a um determinado nível médio das marés e qualquer alteração de nível na estrutura recifal produz alterações consequentes nas espécies componentes dessa comunidade biológica. Assim quando colocamos no Recife bloco granítico ou de concreto, estamos alterando o substrato fixo não só em sua natureza, mas principalmente no nível em relação as marés, o que provoca profundas alterações na diversidade biológica. A verticalização favorece a poucas espécies pois limita extensivamente o plano recifal.

“Onde o sedimento se deposita sobre o Recife, a comunidade macrozoobentonica praticamente deixa de existir. Nós não encontramos nenhum organismo vivo. É muito pior que o pisoteio. O pisoteio reduz uma ou duas espécies, O sedimento sobre o topo recifal não se encontra nada sobre ele”

Gabriel Le Campion

Obras mal planejadas, podem levar o transporte de sedimento e deposição sobre os recifes, principalmente se estes estiverem muito próximo da área afetada, os sedimentos sobre a biota do topo recifal é extremamente danoso a mesma. Em estudos que realizamos sobre a comunidade macro bentônicos do topo no ambiente recifal nas praias de Piedade em Jaboatão Pernambuco, na Pajuçara e Paripueira em Alagoas. Constatamos o que é deposição de sedimentos sobre o topo recifal provoca a morte por sufocação de todo organismo macrozoobentico sesseis ou com baixa condição de deslocamento que habitam comumente o topo recifal onde esses sedimentos se depositam.

NOTA DA COLUNA:

No caso do Cabo Branco é preciso verificar se foi considerado a formação dos “tômbolos” na modelagem matemática da obra e qual o seu impacto no ambiente recifal.

Marco Lyra