SELEÇÃO CACARECO (05)

Blog do jornalista Lenivaldo Aragão

A Cacareco chegou em paz ao Equador, apesar do contratempo (Foto: Arquivo do Blog)

Ao descerem no aeroporto de Lima, os componentes da Seleção Cacareco receberam uma notícia que causou alguma contrariedade. Segundo me contou o administrador Jaime de Brito Bastos, a aeronave que os levaria ao destino final, ou seja Guayaquil, já havia partido. É que o voo que os levara do Brasil tinha chegado à capital peruana atrasado. Àquela altura, a aeronave da conexão já sobrevoava a Cordilheira dos Andes, com destino ao Equador.  O jeito foi dividir o pessoal em dois grupos, acomodando-os em aviões menores, de carreira.
Rubem Moreira foi encaixado numa turma que viajou primeiro.  Na segunda em que predominavam os jogadores, ia Jaime, que levava passaportes e demais documentos necessários para o desembarque em solo equatoriano.
Obrigado a ficar confinado numa sala do aeroporto de Guayaquil, junto com seus companheiros do primeiro avião, porque estava sem o passaporte, o impaciente Rubem Moreira, com o passar do tempo já não se continha, demonstrando intenso nervosismo. Sua ansiedade só foi atenuada com a chegada da segunda turma, e a documentação.
Finalmente, os componentes da Cacareco encontravam-se no hall do aeroporto, aguardando a retirada das bagagens para demandar o hotel.


Guayaquil, a cidade do campeonato (Wikipédia)

O Brasil tinha sido campeão do mundo fazia um ano, o que levava o prestígio do futebol canarinho às alturas. Só que os jornalistas não sabiam que tínhamos mandado uma equipe regional e não o primeiro time nacional.
Assim que as feras foram soltas, os repórteres caíram em campo, na sua natural avidez por entrevistas. E haja confusão. Dodô, lateral-esquerdo do Santa Cruz, foi confundido com Pelé. O futuro “rei” estava em começo de carreira, já tinha sido campeão mundial, mas os meios de comunicação não espalhavam as imagens dos craques pelo mundo, com a facilidade e a velocidade atual.
O vaidoso Gentil Cardoso teve seu amor próprio arranhado quando um repórter procurou entrevistá-lo como se fosse Mário Américo, o massagista da Seleção Brasileira.
– Não sou Mário Américo, sou o técnico Gentil Cardoso.
Dito isto, o treinador começou a fornecer informações sobre a Cacareco, dando uma verdadeira aula de geografia para mostrar onde ficava Pernambuco. Gentil gostava de mostrar erudição e conhecimento geral.


Zé de Melo, Gentil, Zé Maria, Geroldo e Bria (Foto: Arquivo do Blog)

Divertido mesmo foi quando a turma acercou-se de Rubem Moreira. Certamente, nosso ‘vice-rei’ jamais pensara que algum dia fizesse tanto sucesso na vida, diante da mídia. Depois de muito falatório, sem que Rubem entendesse o que a imprensa queria saber, a situação foi esclarecida.
– Pero, usted non es Feola, el director técnico brasileño?
Já irritado, o que era uma constante em sua vida, Rubão respondeu de uma maneira bem peculiar:
– Feola é a puta que pariu…
Os jornalistas espantaram-se diante de uma reação tão estapafúrdia e maluca. O chefe da delegação foi contido, na sua fúria, por Jaime da Galinha, que muito se divertia com a cena.
– Calma, Seu Rubem, deixe que eu falo com eles.
Ainda se esforçando para não soltar uma gargalhada, o funcionário da FPF conversou com a imprensa, explicando que aquele homem afobado era o chefe da delegação. Que eles levassem por menos, uma vez que o dirigente era muito explosivo. Ficou o dito pelo não dito.
Si, como non? (3)
 
TRATAMENTO EXEMPLAR
A chegada a Guayaquil foi assim descrita por Adonias de Moura, do Diario de Pernambuco, em matéria enviada de Guayaquil:
“Depois de uma demora de seis horas no aeroporto de Lima, capital peruana, a delegação brasileira seguiu diretamente para esta cidade, local dos jogos sul-americanos extras de futebol, em avião da Panagra.
Recebendo um tratamento exemplar do pessoal da aeronave que nos trouxe a Guayaquil, a viagem transcorreu tranquilamente. Como acontece nas delegações, observamos muita coisa de comum: uns tocando e cantando, outros cochilando ou falando nas famílias distantes; outros lendo os jornais do Rio e de países sul-americanos. Durante as seis horas que passamos em Lima, no aeroporto, nada se fez. Demos ligeiro passeio porque a ordem era seguir imediatamente, logo que o avião ficasse pronto duma revisão.”
NEM NÁUTICO NEM BANGU
A cidade de Guayaquil respirava o Campeonato Sul-Americano Extra. O técnico Gentil Cardoso dava os retoques finais na equipe brasileira, que faria a estreia, enfrentando o Paraguai. A preparação das equipes chamava a atenção dos torcedores locais. Os participantes, além do Equador, país patrocinador, eram Argentina, bicampeã sul-americana (1957 e 1959), Brasil, Paraguai e Uruguai. Argentinos e uruguaios, nossos tradicionais adversários, contavam com a força máxima, tendo como destaques, respectivamente, Sanfilipo e Sacia, atacantes.
Guayaquil, hoje com 2.272.691 habitantes, já era a cidade mais importante do Equador, superando Quito, a capital, que atualmente abriga 1.607.734 pessoas. Naquele fim de ano a presença de várias seleções nacionais movimentava, sobremaneira, a cidade. Em todas as equipes, cada uma com seu sotaque, falava-se o idioma espanhol, com exceção do Brasil. 
Numa de suas inúmeras tiradas, o técnico Gentil Cardoso, na expectativa da estreia da Seleção Cacareco contra o Paraguai, mostrou uma bandeira brasileira a seus jogadores, fazendo-lhes esta hilariante advertência:
 – Estas cores não podem perder nem para o Náutico nem para o Bangu.
É que a camisa da Seleção Paraguaia tem listas verticais nas cores branca e vermelha, lembrando os dois times citados pelo treinador.


Jogador da Seleção Paraguaia (Mantos do Futebol)

Gentil Cardoso era ao mesmo tempo elogiado e criticado em sua longa carreira. O oficial de dia que ele usava na Cacareco, em 1959, e quatro anos antes (1955) no Sport já era uma tradição por onde andava.
“Escalava diariamente um jogador como Oficial de Dia. Era engraçado ver um atleta do clube se responsabilizando pelo cumprimento dos horários, cobrando caixinha pelos atrasos ou pelo recolhimento do material de treino” – contaria um dos seus antigos comandados, no Vasco da Gama, o ex-goleiro Valdir, no livro “Onde Ele Pisa Nascem Histórias”.SI, COMO NON
O campeonato, como é praxe, foi precedido do Congresso de Abertura. Sessão solene realizada no anfiteatro de uma universidade, sob o comando do presidente da Conmebol, com a presença dos representantes das cinco seleções, desportistas e autoridades locais.

Foi indicada a Mesa Diretora, cabendo ao brasileiro Rubem Rodrigues Moreira, o cargo de secretário-geral. O presidente da Federação Pernambucana de Futebol tomou seu assento e logo chegou uma bela equatoriana que, sorridente, lhe entregou lápis e bloco de anotações. Rubão fechou a cara porque essa tarefa de ficar anotando não fazia parte de seu perfil.
Iniciada a reunião, como todos falavam espanhol, à exceção de Rubem Moreira, era um tal de todavia, si, como non, deixando o secretário da reunião voando. Ruim mesmo foi quando as discussões evoluíram e o presidente da Conmebol, à primeira proposição apresentada, pediu para o secretário-geral “firmar” na ata.

 – Como? – perguntava o desconcertado pernambucano, que logo recebia o auxílio de uma das jovens colocadas à disposição da Mesa.  Em vão, a equatoriana procurou fazê-lo sentir a necessidade de anotar o que estava sendo discutido.
Por mais que explicasse, o cartola brasileiro ficava só a gesticular, demonstrando não estar entendendo patavina. 
A moça falava e Rubem insistia com a gesticulação, agora já mostrando impaciência, o que lhe era peculiar.   Os outros dirigentes entreolhavam-se, de maneira indagativa, mas ninguém manjava nada. E a ata não atava nem desatava.
Quando Rubem não suportou mais a tortura, virou-se para o auditório e quebrou o protocolo, soltando um berro nada elegante:
  – Jaime de Brito Bastos!
Estupefação total. Jaime da Galinha, um pouco encabulado, embora já estivesse vacinado para esse tipo de reação do chefe, saiu rapidamente em auxílio do Comodoro. Este não se conteve:
  – Vem assumir logo essa porra porque eu não entendo esses gringos não.
E foi se levantando, para espanto geral. Os representantes dos outros países estavam confusos. Só que Jaime não podia substituir Rubem por não estar credenciado para tal.
O administrador da delegação brasileira teve uma ideia repentina. Soprou ao ouvido de Rubão, sugerindo-lhe deixar imediatamente o local sem precisar dizer até logo. O chefe da delegação brasileira, que estava querendo isso mesmo, seguiu sem pestanejar o que lhe foi sugerido.  Mais um espanto para os componentes da Mesa, que ouviram Jaime explicar de maneira fajuta:
– Ele sentiu um mal-estar terrível e foi para o hotel descansar, pois não tinha condições de permanecer na reunião.
– Si, como non? – acatou o presidente da sessão, que rapidamente convocou o segundo secretário para assumir a vaga. E a reunião prosseguiu, com moderação, sem gritos e sem gesticulações.
 
 







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