Teatro da Vida (Causos) e Poesias

Pescador?

Um dia desses, eu estava “tomando uma” num boteco, aqui em Boa Viagem, perto do Recife Plaza, onde moro. Aí chegou um conhecido – vou chamá-lo de “Godofredo” – que é famoso no bairro por contar estórias mirabolantes e que, para muitos, são mentirosas de tão fantasiosas. Alguns, no entanto, argumentam que uma “mentirinha”, desde que não seja uma “mentira cabeluda”, daquelas que o nariz fica igual ao do Pinóquio, são necessárias e evitam um mal maior ou até mesmo uma tragédia. Pois bem, o “Godofredo” estava na mesa de um bar, ao lado de três mulheres, e jura de pés juntos que não é uma piada e que ouviu mesmo o seguinte papo: Elas, animadas, bebericavam doses de Martini. Aí, a morena falou: – Eu vou ser a primeira morena a pisar na lua. A ruiva disse: – Eu vou ser a primeira ruiva a pisar na lua. Com ar pensativo, a loira retrucou: – Eu vou ser a primeira loira a pisar no sol. Com espanto, a morena alertou: – Você vai se queimar toda, sua tonta. No que a morena arrematou: – Nãããoo, eu vou à noite. E aí,dá para acreditar nessa estória de “Godofredo”? A única verdade: Pescador, eu garanto que o cara não é.

 

Poesias

A Inveja

Robson Sampaio*

“A inveja, quando não mata,

aleija os pensamentos e

o estômago vomita as vísceras

reféns da raiva e do ódio”.

Dedilha na viola, o violeiro cego,

um cântico choramingado em

frente à Praça da Igreja-Matriz.

E tasca mais versos, no choramingar

da viola: “Sentimento impuro, capaz

de gerar ciúme, insensatez ou ódio,

tamanho é o desatino

e que pode levar ao crime”.

E o violeiro cego dedilha, no

choramingar da viola, o arremate do

cântico: “E Caim matou Abel!”

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Boneco-gente?

 *Robson Sampaio

 

No estrelar da noite olindense,

surge a  cantar e a dançar

uma multidão de brincantes

a sorrir com uma alegria contagiante

sob o compasso de um gigante,

às vezes boneco, às  vezes gente:

é o Homem  da Meia-Noite.

 

Explodem os clarins, o passo,

os amores, as ilusões passageiras,

tão efêmeros, quantos eternos,

no gingado do frevo

de um Carnaval sem fim.

 

É o povo, é o canto, é Olinda,

é o Homem da Meia-Noite:

às vezes boneco, às  vezes gente,

neste ritmo efervescente

do frevo pernambucano

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 Vou “m’imbora pro” Recife…

Robson Sampaio*

Vou “m’imbora pro” Recife

do mar, das jangadas, das redes,

dos pescadores, dos peixes, do caçuá,

dos mangues, das ostras, dos siris,

dos caranguejos e da minha gente…

Vou “m’imbora pro” Recife

dos caboclinhos, da ciranda,

do maracatu, do baque-virado,

do Galo da Madrugada,

do Homem da Meia-Noite,

do frevo e dos meus foliões…

Vou “m’imbora pro” Recife

dos arrecifes, das pontes, dos becos,

das travessas, dos bares, dos botecos,

dos boêmios, da lua, das estrelas, do vento,

do sol, dos meus sonhos, da minha sina e

do meu Capibaribe…

Eu vou “m’imbora pro” Recife e

vou “m’imbora pra” mim mesmo!

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

A Cruz do Patrão

Robson Sampaio *

Ecoam gritos eternos na

vastidão das noites e do mar.

Gritos de dor lancinante,

tão fortes que varam os

arrecifes, as almas emitem

sons quase selvagens.

São lamentos de negros

sem o sonho da liberdade,

feridos de saudades e de morte.

Submissos à espera do senhorio

estão os filhos da vida sem vida,

confinados na Cruz do Patrão,

onde o tempo não sepulta a lenda

e a injustiça ainda açoita os insepultos,

escravos-fantasmas…

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Sertão

 

** Robson Sampaio

    

Gente sem rumo, pé na estrada

Pão dormido, alma penada

Povo sofrido, assombração!

 

(sem eira nem, beira, de cuia na mão)

 

 

Rio sem água, caçuá vazio

Gado sem pasto, boi sem cabeça

Povo sofrido, judiação!

 

(sem eira nem beira, de cuia na mão)

 

 

Gente sem rumo, pé na estrada

Terra em brasas, feito tição

Povo sofrido, Sertão!

 

* A Ascenso Ferreira

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

 

Sertanejo da dor

 

Robson Sampaio *

O sopro surdo do vento

parece murmúrio de vozes

em lamento pela morte.

A madrugada foge num repente

danado com medo do amanhecer.

Sob o sol, os cascalhos e a terra areosa

refletem a imagem do céu.

Sina?

 

Na trilha de pó, pedras e galhos secos,

o sertanejo caminha entre crenças e

esperanças de cangaceiros.

Um penar sem fim?

 

No peito carrega o grito

do deserto-desesperança. A benção nunca

chega, apesar das rezas de virgens órfãs,

criadas por devotas beatas.

Santuário?

 

“Valei-me, meu padim-padre Ciço!”,

prece de fé e de desespero. A morte é

a passagem da Salvação?

 

O chão é um mar em brasas,

com a folhagem sem cor e a natureza

perdendo a vida. E a caatinga vira léguas

de judiação do sertanejo da dor.

Penitência?

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Adeus, meu Capitão!  

Robson Sampaio *

Sol de fogo,

terra batida,

punhal e mosquetão.

Treme a caatinga

com medo do Capitão.

 

Calam-se, as armas!

Maria Bonita com

a flor na mão.

Treme em desejos

o amor de Lampião.

 

Fogo cruzado,

tocaia grande,

só danação!

Treme Angico,

Adeus, meu Capitão!

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

Filhos da Caatinga

 

Robson Sampaio *

  

 Ôxente, meu fio,

cadê o boi no cercado

e toda aquela plantação?

Foi embora no vento,

sumiu tudo no céu,

feito ave de arribação.

Agora, é só terra em brasas,

ardendo que nem tição.

 

Do gado só as cabeças,

igual assombração.

Feito rio escorregadio,

a terra plantada se foi,

levada no deslize do chão.

Ai, que tamanha judiação.

 

Inhô, num gema não,

basta de choro e reza,

feitos só de lamentação.

A terra é seca e batida,

igual alma sem alumiação,

mas, de gente com fé no Santo,

indo e vindo, solta pelo Sertão.

 

São os filhos da Caatinga,

sofrendo toda humilhação.

Mas, briga, mata, esfola ou morre,

mesmo sem ser Lampião.

Ôxente, sêo Capitão,

Virge, Santa Maria,

pra quê ser tão valentão?

Num tem nem quase a vida

e, muito menos, esse chão.

 

Cruz credo, Ave Maria,

dê-me a benção Padim Ciço,

pois, é só dor no meu Sertão.

Mas, juro meu Santo querido,

que de fome, a gente num morre não.

 

* Jornalista, poeta, da Academia Recifense de Letras/Cadeira 22- Patronesse: Thargélia Barreto de Menezes, e da União Brasileira de Escritores (UBE/PE).

 

rsampaioblog@gmail.com

 

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