UMA PAUSA, POR FAVOR/Fátima Quintas

O sol clareava a beleza da Praça naquela tarde indefinida. Sentada em um dos seus bancos, apreciava o sorriso das crianças. A alegria reinava na ingenuidade de quatro meninas que se distraíam entre trelas bem arquitetadas. Jogavam bola, escondiam-se entre os troncos das árvores e se divertiam à vontade. Tantas invenções que me levaram a mergulhar no abstrato, como se a vida precisasse ser conduzida ao modo de um jogo que exige o máximo de inventividade. Os olhos se alumbravam diante das surpresas. Quando tudo parecia acontecer com alguma linearidade, novos cenários se edificavam: trocavam de blusa entre elas, pintavam o rosto com o batom das mães, as expressões se renovavam, diziam palavras desconhecidas, até mesmo a linguagem adquiria uma nova feição. A história de cada uma revelava-se por entre episódios múltiplos. O tempo era curto para o tamanho da inspiração. Acatei as fantasias na ânsia de redirecionar os caminhos.

Apreendi que cada minuto delineava a vontade do momento. Nada de excesso de racionalidade, apenas a emoção do instante. Enquanto isso o meu pensamento parecia desabrochar na cadeia de atitudes. Seria eu capaz de redimensionar os capítulos da vida? Quão pobre a imaginação! À frente, vários espetáculos se acumulavam em conjugação. O sorriso de cada criança me levava a conceber o próprio eu. Respirei fundo e adentrei a pura ficção na esperança de relativizar os episódios do dia: a infância assumia a total liberdade da existência. Deixei todas as perguntas de lado, valia apenas renovar as fabulações. Acreditei no momento que eu própria ressignificava. Os anos se passaram em frações de segundo, estava ali e não estava, não tinha idade, abandonei os princípios que me ensinaram, abracei um novo espetáculo; eu me modificava a cada horizonte. E eram tantos que tive receio da própria imensidão. Fui além sem o menor temor de algum arrependimento. Enfrentei o porvir.

Desarrumei a interioridade, cresci em esperanças, continuei a ouvir os suspiros da meninada. Sequer sabia quem eu era. Perdi a identidade. A Praça se transformou no paraíso da fuga. A interação com o irreal me fez mudar. Ia e vinha em constante velocidade: a memória se transformou em elementos de leveza; ganhei a batalha dos conflitos; reformulei a interioridade; nascia de novo, agora somente sob a ode dos devaneios. De repente, o sol dava lugar ao crepúsculo. Tomei um susto. Já era noite. E as crianças tinham partido.

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras – fquintas84@terra.com.br

 

 

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