VOLTEIOS E REVOLTEIOS/Fátima Quintas

A sequência ritmada se regulava pelo amanhecer. Às seis horas da manhã acordava indagando: “Que dia é hoje”. Precisava conferir a data da existência. Desde então, jovem e quase inocente, já me preocupava com mistérios que ainda não sabia formular. Tudo era vago. Dia claro e exuberante; noite sombria. Existia eu ao embalo dos cuidados dos adultos. Perguntava muito. Ouvia as respostas com desconfiança. Os sentimentos se formavam à luz das inquietações. Mudei pouco. Talvez quase nada. Continuo igual aos tempos de outrora. Os anos se entrelaçam.

Quantas vezes meu irmão me ensinou a somar! E a subtrair. Sempre tive dificuldade com os números e as subtrações entristeciam-me — demorei a entender os retrocessos. Será que algum dia entendi? A infância, guardo-a em lugar privilegiado; tão silencioso quanto oculto. Quase escondido na alma. Há gavetas fechadas no móvel que espio todos os dias. Preservo-as como relíquias de um passado que não findou. Ainda sou a mesma menina a perscrutar confusos labirintos. E raramente acredito em respostas assertivas. Há em mim uma dubiedade que me faz una — vaivém que me confunde. Não sei definir-me, tampouco almejo tamanha façanha. O latejamento das pulsações me atemoriza. Sempre e sempre. Os receios crescem à medida que a idade avança.

O passado se confunde com o presente, não há como separá-los. Divido-me em fragmentos para melhor compreender-me. Não tenho certezas. Nenhuma. As dúvidas estão impregnadas ao Ser. Alimento-as para melhor cadenciar a caminhada. O gerúndio me agrada no seu hesitante continuísmo… E cada passo à frente me convida à meditação. Refletir simboliza o verbo que mais me agrada. Nunca sei quem sou nem onde estou!… Os becos se acumulam entre elos de sobrevivência. Então, entrego-me aos questionamentos para deles sugar possíveis interjeições.

A menina de hoje não tem o rosto de ontem, mas se conserva interiormente em finas semelhanças. Jamais emudece diante de indecifráveis horizontes. Existe uma imensidão de mim em ilhas isoladas: partes se irmanam na configuração de eus. Quantos? Não quero saber. Para que mensurar o imensurável? Fujo dos espelhos; evito confrontos; acato a complexidade da existência, assim, inscrevo-me em plena diversidade. Misturar-me a todas as emoções induz a envolvimentos inexplicáveis. Enigmas se exacerbam sob a incapacidade de compreendê-los. Entre volteios e revolteios tenho apenas um nome. E me basta. Para que mais?

Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras.  fquintas84@ terra.com.br

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